terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

SÓ PODIA SER..!


Outrora a vida negara-me o direito a voto sobre a minha própria existência, neste palco de hipocrisia. Nunca me sentira assim antes. Mesmo que tentasse, continuaria no mesmo statu quo. Era como se estivesse num deserto escaldante carregado de bugigangas e conduzido por um camelo. Nunca ninguém poderia dizer que me viu alegre, mas na verdade isso aconteceu.

Era final de tarde. Em pleno caminho de volta a casa, sentia o pulsar do Universo, o meu rosto reluzia e os meus lábios libertavam olhares de enlevo para a multidão que não reparava na minha retumbante presença. Sorridente, sereno como as águas que rebolam das montanhas e com movimento nítido, caminhava como que político na caça ao voto. Pela primeira vez sentia-me comovido com os mendigos que brotavam na porta de mesquita e estendiam-se até onde a rua perdia a identidade.


O som das buzinas e os rosnar das viaturas formavam uma melodia contínua, suave e envolvente. Esporadicamente espreitava o bolso e o meu sorriso dourado alargava-se quando via o salário intacto e saudável, repousando sem preocupar-se com arrocho económico. Não resisti à forte ofensiva do sentimento de prosperidade, afinal não seria imperioso fazer malabarismo para cobrir todas as despesas. Nunca antes sentira o calor de tantas notas de moeda estrangeira. Eram dez meses de salário em atraso, dois meses de salário adiantado e uma multidão de horas extras.

Esfregava as mãos de contente, num impulso entrei no bar que ficava a quinhentos metros de casa.
Uma cerveja, por favor! – solicitei, fazendo um scanner aos súbditos daquela nobre casa.
Trouxeram-me a garrafa. Com o copo a transbordar, olhei para cima e disse:
Senhor, só vou beber esta cerveja para te agradecer por me tirares do sufoco, por mim não bebia. – Duvidei de mim mesmo, eu que era incrédulo de nascença, acreditava num milagre. De seguida dei um prolongado golo e efusivo apreciava aquela verdadeira obra prima. Quebrava assim o jejum de álcool. O sabor da bebida fizera-me esquecer um pouco o calor abrasador que emergia no fluir da noite. Sem hesitação, mergulhei em mais quatro cervejas. Sentia um bem-estar que nunca antes sentira. Tudo era calmo e nada me inquietava. Em pensamentos fazia as contas, separava o dinheiro para alimentação, renda de casa, mensalidade dos filhos, conta de água e de energia e as dívidas, misturavam-se com as lembranças dos tempos de pelejas infrutíferas.


Subitamente sentia os raios dourados a careciarem-me o rosto, era o sol entrando sem pedir licença. Abri os olhos timidamente, vi-me na cama ao lado da minha mulher. Olhei para mesinha de cabeceira estava o telefone a roncar.
Alô!!?
Colega Chuva, estamos à sua espera para darmos início à greve. Seja rápido e não se esqueça da picareta
E aquela sensação de alegria, a história do salário pago e as cervejas que bebi? Tudo não passara de um sonho. Só podia ser um sonho!

segunda-feira, 13 de Abril de 2009

LÁ VOU EU NAS HISTÓRIAS QUE NUNCA CONTEI

O PROBLEMA SÃO AS PESSOAS E NÃO O SISTEMA?!!(2/2)


Sem ira e nem contenda deixei o local. Mergulhei nesse caprichoso e visitado mar de mentiras à procura de uma inverdade que podesse adequar-se à história que pretendia contar a Anifa. Sem esforço, achei uma requintada ideia, que diligentemente fui fabricando pelo caminho de volta a casa. Ligeiro como um raio, o meu amigo Abudo – o dono do fato – apareceu na minha direcção, fiquei aturdido pelo receio e entrei pela primeira porta que vi. Olhei para o outro lado da rua, estava a Amina, prima da Anifa, a sorrir cinicamente para mim. Gradativamente, apercebi-me que me encontrava no antro de prostituição onde busquei prazeres carnais na minha mocidade. “Lá se foi o meu casamento” – senti-me diminuído.
Atordoado, pus-me a correr para casa, mas fui último a chegar. A Anifa esperava por mim pacientemente. Os seus olhos cintilantes demonstravam tamanha frieza. Inabil e áspero dei a má notícia sem rodeios: - Não consegui o emprego!
Sem conter as lágrimas, a Anifa falou indiscretamente no fim do matrimónio, depois de me fazer declarações com os adjectivos perjorativos que melhor lhe aprouveram. Numa movimentação rápida, com ajuda da Amina pegou nas suas trouxas e partiu para o incerto.
A solidão consumia-me ferozmente nas noites mais frias de inverno, a dor era expressada pelas lágrimas que rolavam no meu rosto perecido e os meus olhos ficavam congestos e desenfreadamente me lembravam dos meus dias áureos.
Sisudo, cheguei a pensar que os meus antepassados conspiravam contra mim. Talvez alguém que estivesse algures no céu. Talvez o meu bisavô Zunguza por causa do pijama, mas a julgar pelo que fez cá na terra duvido que tenha conseguido uma vaga no paraíso privado.
Os dias, meses e anos passaram, decide ir levantar o meu B.I depois de ter sido diversas vezes prorrogado por cem vezes tantos dias. Era sexta-feira, em direcção à D.I.C deparei-me com o meu compadre Sitoe.
- Compadre Macanga, és tu mesmo!? – perguntou-me com a boca entreaberta – Quando cruzei com Anifa, ela disse que o compadre estava morto. Mal soube disso tratei de correr para aquele vovó em Mabone para amaldiçoar a tua vida mesmo morto, por causa dos quinhentos meticais que me deves.
- Olhando para mim compadre, há diferença entre eu e um morto? – disse eu espirituosamente.
- Eish compadre, a vida te maltratou! Paga o que me deves para eu poder ir a Mabone dizer que a pessoa não morreu.
Com olhos fitos na estrada, pus-me a caminhar. Cheguei a DIC desanimado, o ambiente era estranho e alguma coisa de errado devia estar a passar-se. Fazendo um movimento acrobático para sair pela porta escancarada daquela sala que se encontrava completamente vazia, fui interpelado pela voz de uma funcionária. Aproximei-me e ela sorriu alegremente. “Funcionária pública a sorrir, coisa boa não deve ser” – pensei silenciosamente. Entrego o talão e ela cuidadosamente procura pelo meu bilhete. Com largueza de gesto disse de forma enégica:
- O seu B.I caducou, aconselho-o a renovar.

segunda-feira, 6 de Abril de 2009

LÁ VOU EU NAS HISTÓRIAS QUE NUNCA CONTEI *

O PROBLEMA SÃO AS PESSOAS E NÃO O SISTEMA!!?(1/2)

Sentia-me como que um repolho, tratado com o devido esmero, preso numa terra adubada. O calor era de rachar. Pus-me a confessar todos os meus pecados, desde os mais cabeludos até os mais carecas. Ainda bem que a minha Anifa não ouviu as minhas súplicas, pois não preciso de ser advinhador para saber qual seria o meu novo estado civil. Cheguei a pensar que estivesse no inferno pagando pelos pecados que cometi desde a nascença. Se não fosse a minha vizinha acordar-me com a sua habitual oração matinal, o tão estimado pijama que pertencera ao meu bisavó Zunguza, do qual me apossei aquando da sua morte, teria sido engolido pelo esfomeado fogo. Suspirei de alívio ao ver que o candeeiro de querosene havia queimado o meu pé esquerdo, já imaginou se fosse o pijama!? Ainda bem que foi o meu pé..! - suspirei novamente. De súbito apercebi-me que as horas corriam como que estivessem numa olimpíada, num ápice aprontei-me e fiz-me à rua.
No dia parecia faltar alguma coisa para que fosse lindo. O sol olhava-me com desdém, talvez porque usava o fato que pedi emprestado há três anos do meu amigo Abudo para contrair matrimónio e ainda não o devolvi. Quando desfilava nos passeios, que mais se pareciam com armadilhas, um remoinho de vento cruzou a minha vereda, só não me levou consigo devido ao meu avantajado corpo. Cheguei ao ministério com cinco minutos de atraso.
- O senhor é parvo ou está gozar comigo? – indagou o chefe dos recursos humanos.
- Desculpa chefe, não entendi.
- Ó meu Deus, para além de parvo é também burro! O anúncio de vaga pedia fotócopia do B.I e não sei por que carga de água, o senhor traz-me fotocópia do talão…
- Como está bem claro no talão, o meu bilhete de identidade teria saido há nove meses e passam vinte e um meses ainda não saiu, mas quem sabe hoje!
- E onde é que eu entro nesta história? Por favor, saia e dê oportunidade aos que realmente precisam. A seguirrr..!
– gritou violentamente.

Deixei o ministério cabisbaixo e com a alma aleijada. A caminho da Direcção de Identificação Cívil (D.I.C), amaldiçoava o ventre que abrigou aquele mal-parido. Proferia palavras indecorosas contra a mulher que lhe havia parido. Palavras que se fossem direccionadas para a dona senhora minha mãe, mastigava sem piedade o nariz de quem ousasse a dizer tais coisas. Eram dez horas quando cheguei à D.I.C.
- Esta é a bicha para o levantamento do B.I? – quis eu saber.
- Não, esta é a bicha para receber laranja! O senhor não está a ver? – resposta sufocante.
Olhei furioso para o indivíduo. A sorte dele era ter o dobro do meu tamanho, se não fosse isso, havia de lhe proporcionar um funeral.
A bicha não andava. As pessoas esperavam ansiosamente pelo atendimento. Os funcionários público desfrutavam a delicia da primeira refeição do dia desde as sete e meia, hora que tinham chegado ao local de trabalho. Deviam ser onze horas e cinquenta minutos quando começaram a atender o público. A morosidade era de cortar a respiração. Quarenta e cinco minutos depois, os funcionários fizeram uma pausa para o almoço. O almoço perdurou quase duas horas. Voltaram ao trabalho quando faltavam trinta minutos para o fim do expediente. Assistia novamente os mesmos passos de caracol. Finalmente chegara a minha vez. Olhou-me como uma criatura minúscula, espreitou languidamente para o relógio apoiado na parede e disse:
- Fim de expediente! Olha para as horas.
- Por favor, ajude-me! Estou aqui desde as dez horas – supliquei.
- E onde está o problema nisso? Eu estou aqui desde às sete horas da manhã, o senhor não tem pena de mim? – perguntou-me com a cara mais deslavada do mundo.




*LÁ VOU EU NAS HISTÓRIAS QUE NUNCA CONTEI é um conjunto de 15 textos breves e incisivos escritos por mim.
Faz parte deste livro a crónica “O VIRUS BUROCRÁTICO” que publiquei no meu blogue “SOLTA-TE”. Quem deseja ler a crónica o virus burocratico, clique aqui www.shirangano.blogspot.com/search?q=virus+burocratico