Outrora a vida negara-me o direito a voto sobre a minha própria existência, neste palco de hipocrisia. Nunca me sentira assim antes. Mesmo que tentasse, continuaria no mesmo statu quo. Era como se estivesse num deserto escaldante carregado de bugigangas e conduzido por um camelo. Nunca ninguém poderia dizer que me viu alegre, mas na verdade isso aconteceu.
Era final de tarde. Em pleno caminho de volta a casa, sentia o pulsar do Universo, o meu rosto reluzia e os meus lábios libertavam olhares de enlevo para a multidão que não reparava na minha retumbante presença. Sorridente, sereno como as águas que rebolam das montanhas e com movimento nítido, caminhava como que político na caça ao voto. Pela primeira vez sentia-me comovido com os mendigos que brotavam na porta de mesquita e estendiam-se até onde a rua perdia a identidade.
O som das buzinas e os rosnar das viaturas formavam uma melodia contínua, suave e envolvente. Esporadicamente espreitava o bolso e o meu sorriso dourado alargava-se quando via o salário intacto e saudável, repousando sem preocupar-se com arrocho económico. Não resisti à forte ofensiva do sentimento de prosperidade, afinal não seria imperioso fazer malabarismo para cobrir todas as despesas. Nunca antes sentira o calor de tantas notas de moeda estrangeira. Eram dez meses de salário em atraso, dois meses de salário adiantado e uma multidão de horas extras.
Esfregava as mãos de contente, num impulso entrei no bar que ficava a quinhentos metros de casa.
- Uma cerveja, por favor! – solicitei, fazendo um scanner aos súbditos daquela nobre casa.
Trouxeram-me a garrafa. Com o copo a transbordar, olhei para cima e disse:
- Senhor, só vou beber esta cerveja para te agradecer por me tirares do sufoco, por mim não bebia. – Duvidei de mim mesmo, eu que era incrédulo de nascença, acreditava num milagre. De seguida dei um prolongado golo e efusivo apreciava aquela verdadeira obra prima. Quebrava assim o jejum de álcool. O sabor da bebida fizera-me esquecer um pouco o calor abrasador que emergia no fluir da noite. Sem hesitação, mergulhei em mais quatro cervejas. Sentia um bem-estar que nunca antes sentira. Tudo era calmo e nada me inquietava. Em pensamentos fazia as contas, separava o dinheiro para alimentação, renda de casa, mensalidade dos filhos, conta de água e de energia e as dívidas, misturavam-se com as lembranças dos tempos de pelejas infrutíferas.
Subitamente sentia os raios dourados a careciarem-me o rosto, era o sol entrando sem pedir licença. Abri os olhos timidamente, vi-me na cama ao lado da minha mulher. Olhei para mesinha de cabeceira estava o telefone a roncar.
- Alô!!?
- Colega Chuva, estamos à sua espera para darmos início à greve. Seja rápido e não se esqueça da picareta.
- Alô!!?
- Colega Chuva, estamos à sua espera para darmos início à greve. Seja rápido e não se esqueça da picareta.
E aquela sensação de alegria, a história do salário pago e as cervejas que bebi? Tudo não passara de um sonho. Só podia ser um sonho!


